sábado, 14 de janeiro de 2012

De Nicéia até as Cruzadas (Agostinho de Hipona)

Continuando a história do Cristianismo,  agora vamos dar uma olhada nos acontecimentos mais importantes e relevantes desde o Concilio de Nicéia até as Cruzadas. Esse vai ser um resumo de tudo relevante que aconteceu até lá. Então farei um post sobre as Cruzadas, depois inquisição, reforma protestante, etc, etc, tudo em ordem cronológica.

Os Donatistas

Para quem leu os posts "Édito de Milão" e "Concilio de Nicéia", para entender bem vamos voltar um pouco, um pouco antes de Édito de Milão quando os Cristãos eram perseguidos pelo Império Romano.

Durante a "Grande perseguição" também conhecida como "Perseguição de Diocleciano", pois o imperador na época era Diocleciano, O bispo Donato Magno presenciou vários Traditores (Alguns líderes da Igreja, pouco propensos ao martírio e à tortura, se mostraram dispostos a concordar com as exigências do imperador, como adorar os deuses da religião antiga - considerados ídolos pelos cristãos - ou entregar livros religiosos ou propriedades da Igreja para as autoridades imperiais. Estas pessoas ficaram conhecidas como traditores ("aqueles que entregaram"). Esses traditores ou "traidores", logo após Constantino assinar o Édito de Milão foram reintegrados a Igreja como Bispos. O Bispo Donato Magno era contra essa postura, e fazia uma forte campanha contra esses traditores.

Os Donatistas defendiam a idéia de que a graça e os sacramentos não poderiam ser administradas através de mãos imorais e desertoras dos traditores, e se feitos por eles eram inválidos. Em 314, apenas um ano após o Édito de Milão, Constantino convocou o Sinodo de Arles (Estes concílios não representaram de forma universal a igreja e, por isso, não foram contados entre os Concílios Ecumênicos oficiais) , no qual a apelação de Donato falhou, e ele então o próprio Donato é quem foi excomungado (Excomunhão é uma punição religiosa utilizada para se retirar ou suspender um crente de uma filiação ou comunidade religiosa.) pela igreja.

Mas a convicção dos Donatistas continuaram por vários anos e era a "pedra no sapato" da igreja na época.

E foi ai que entrou na História, Agostinho de Hipona.

Agostinho de Hipona e a controvérsia da pureza.


Na Igreja Católica, e na Igreja Anglicana, é considerado um santo, e um importante Doutor da Igreja, e o patrono da ordem religiosa agostinha. Muitos protestantes, especialmente calvinistas, o consideram como um dos pais teólogos da Reforma Protestante ensinando a salvação e a graça divina.

Foi ninguém menos que Agostinho de Hipona (354-430 D.C) que finalmente pois um fim a disputa Donatista.

Agostinho ergueu uma questão teológica, não moral, mas teológica essencial. Sua teoria era:

"There stands before us one that is faithless ready to baptize, and he who should be baptized is ignorant of his faithlessness: what think you that he will receive?"

"Alguém que não tem fé está batizando, e esse que está recebendo o Batismo é ignorante quanto a falta de fé do batizador: O que você acha que a pessoa sendo batizada está recebendo?"

Agostinho não levou em consideração a consciência do Padre batizador, e chegou a esta conclusão:

"For we find that it is possible that a man should receive faith even from one that is faithless, if he be not aware of the faithlessness of the giver."

"Nós achamos que é possível que uma pessoa receba fé mesmo de alguém que não tem fé, se ele não tiver conhecimento da falta de fé do Batizador, do Padre, etc."

E o Papa Inocente III, escrevendo quase 800 anos depois de Agostinho, confirma essa Teoria:

"Nothing more is accomplished by a good priest and nothing less by a wicked priest, because it is accomplished by the word of the Creator and not the merit of the priest. Thus the wickedness of the priest does not nullify the effect of the sacrament, just as the sickness of a doctor does not destroy the power of his medicine. Although the 'doing of the thing (opus operans)' may be unclean, nevertheless, the 'thing which is done (opus operatum)' is always clean." - Pope Innocent III (1160-1216)

Traduzindo ele diz que "Nada a mais é cumprido ou conquistado por um bom Padre e nada a menos é cumprido ou conquistado por um "mal" padre, porque é cumprido ou conquistado pela palavra do Criador e não pelo mérito do Padre. Então a "maldade" do Padre não anula o efeito do sacramento, assim como um "mal" médico não destrói o poder do remédio. Embora o "fazer da coisa" possa ser impura, apesar disso, a coisa que é feita é sempre pura" Papa Inocente III

Falta de fé, Padres que cometem pecados deliberadamente, "mal" Padres, nada disso importa. O que importa é a Doutrina Oficial. O conhecimento desses fatos através da história e da teologia faz ficar fácil de entender como a hierarquia da igreja Católica poderia, sistematicamente e com conhecimento de causa, colocar indivíduos muitas vezes depravados como Padres.

De acordo com o grande teólogo Agostinho de Hipona, essas coisas simplesmente não importam.


Além da questões morais, muitas outras aparecem. Agostinho não discute sobre a cumplicidade da Igreja e sua hierarquia em estar ciente da conduta e pecados desses "maus" Padres. Mas fica claro pelas suas palavras, e pela história, que isso não importava também. De acordo com Agostinho a Graça de Cristo ainda é passada através de ministros "maus" e "desviados". Mesmo sabendo que podem estar machucando as ovelhas que tomam conta, agindo como lobos aos invés de Pastores, e ainda assim, eles ministram Graça através dos sacramentos da igreja Católica.

Paulo disse que aqueles que praticam tais coisas não entrarão no Reino dos Céus (Gálatas 5:19-21), e que "tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados...(1 Corintios 6:9-11)" e o Filho de Deus disse que aquele que busca sua própria glória é falso (João 7:18). Mas ainda assim, de acordo com a doutrina oficial da igreja, mesmo se os ministros estivessem indo direto para o fogo do inferno, eles ainda poderiam ministrar a Graça de Cristo.

Será que Cristo não teria nada a dizer sobre isso? Que seu nome e sua Graça estavam indo pelo ralo? Poderia essa doutrina ser verdade? Ou isso seria uma evidencia que aqueles que praticam e ensinam essa doutrina não conhecem a essência de Deus, mas criaram uma Religião que funciona como uma "maquina", independentemente se quem opera essa "maquina" é um bom ou um mal operador?

E essa doutrina não fica apenas na igreja Católica.

Uma doutrina semelhante foi adotada pelos Protestantes durante o século 16. Os trinta e nove artigos da Igreja da Inglaterra (1563) claramente dizem que, "os efeitos das ordenanças de Cristo não são diminuídas ou invalidadas pela má conduta dos ministros. A graça de Deus é efetiva, não importando a conduta do ministro." (Theology: The Basics, Alister E. Macgrath)


Agostinha de Hipona e a Guerra


Não existe contraste maior entre as palavras de Cristo e seus Apóstolos, e dos deveres dos Cristãos, e a questão da guerra.

Desde o Imperador Constantino até os dias de hoje, o numero de guerras Cristas, e de Cristãos nos campos de batalha é imenso. É a religião que mais fez guerras e que mais matou na história. Deixa o Islamismo muito pra trás em números de mortes e de guerras. Mas ao contrário do Islã, em qual os fundamentos da religião islâmica sobre guerras e sociedade mudaram muito pouco ao longo dos tempos, todo mundo sabe que o Cristianismo não começou desse jeito. Quando Cristãos fazem ou vão para guerra, ele contradizem os ensinamentos do seu Salvador.

Desde o dia do Pentecostes, em Atos, no primeiro século, até os dias de Constantino, os cristãos não empunhavam a espada, não faziam guerra, não se preocupavam com riquezas, e nem participavam de governos seculares.

No começos dos anos 300 D.C quase nenhum soldado era cristão. No final dos anos 400 D.C quase todos eram Cristãos.

Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; (Mateus 5:39)

Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem;
para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos.
Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? (Mateus 5:44-46)

Vendo isto, os discípulos Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?
Jesus, porém, voltando-se os repreendeu [e disse: Vós não sabeis de que espírito sois].
[Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.] E seguiram para outra aldeia. (Lucas 9:54-56)

Agostinho de Hipona contrariou as palavras de Jesus, e isso traz consequencias até os dias de hoje.

No fim da vida de Agostinho, os cristãos não estavam apenas declarando guerras, mas estavam sendo perseguidos se se recusassem a declarar guerra. A justificação de Agostinho sobre a participação dos cristãos na guerra era essa:

"Não apenas é permitido a existência de uma "guerra justa", que se tornou o lugar comum da teologia moral cristã; mas o pacifista é descreditado, pois a sua refutação em lutar uma guerra definida como "justa" pelas autoridades eclesiasticas se torna um desafio aos comandos divinos. (Agostinho de Hipona), (Jonhson, A history of Christianity, Pg 242) 

Para Agostinho era o dever de um cristão participar da guerra, sendo justa ou injusta:

"Since, therefore, a righteous man, serving it may be under an ungodly king, may do the duty belonging to his position in the State in fighting by the order of his sovereign,—for in some cases it is plainly the will of God that he should fight, and in others, where this is not so plain, it may be an unrighteous command on the part of the king, while the soldier is innocent, because his position makes obedience a duty,—how much more must the man be blameless who carries on war on the authority of God, of whom every one who serves Him knows that He can never require what is wrong?"

"Portanto, um homem justo, servindo a guerra pode estar submetido a um Rei impio, mas deve fazer o serviço que o cabe em sua relação com o Estado em lutar se essa for a ordem do seu soberano, pois em alguns casos essa é a vontade de Deus que ele deveria lutar, e em outras, pode ser uma ordem errada por parte do Rei, mas o soldado é inocente, porque sua posição é de obediência à um dever. Quanto mais deve o homem ser sem culpa se carrega na guerra a autoridade de Deus, o qual todos os que o servem sabem que ele nunca pediria o que é errado?" (Agostinho de Hipona) 

Mas as palavras de Jesus quando indo para a crucificação são claras:

"Disse Jesus: “O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas o meu Reino não é daqui”." (João 18:36)

A queda de Roma

Por volta do ano 400 D.C, o Império Romano englobava a maioria do Europa, o norte da Africa e o Asia menor. A civilização Romana tinha crescido prospera e confortável. E como freqüentemente acontece em épocas de conforto e segurança, a população se tornava mais egoísta, preguiçosa e sem moral. O exército Romano também se enfraquecia junto com a moralidade do povo.

Das terras vizinhas, os bárbaros olhavam com inveja a prosperidade e riqueza do Império Romano. Esses bárbaros embora fossem pouco organizados eles sabiam como guerrear.

Invasão após invasão, se sucedeu que o Império Romano ficou enfraquecido. O golpe final veio em 476 D.C, Odoacro (cerca de 434 - 493), rei da tribo germânica dos hérulos, nasceu perto do Rio Danúbio, em território que hoje é parte da Alemanha. Ao depor o imperador Rômulo Augusto, em 476, pôs fim ao Império Romano do Ocidente e se tornou o primeiro dos reis bárbaros de Roma.

O gigante império Romano que dominou a Europa por mais de três séculos, estava derrubado.

Então começou um período chamado de "Dark Ages", que traduzindo livremente seria "Período de escuridão". Historiadores ficaram no escuro nesse período, porque ninguém estava escrevendo, a não ser a igreja.


O Cristianismo aumenta em poder



Com a queda de Roma, a igreja se transformou em um rica e poderosa viuva, deixada no poder pelo seu noivo, o Estado de Roma.


Na época a Europa estava em um caos emergente, e as pessoas naturalmente procuravam pela parte mais estável da sociedade, na época a igreja. Seus bispos, padres e monges se tornaram os únicos guardiões do conhecimento, que eles ensinavam apenas à aqueles que estavam buscando um avida no clero religioso. Se as pessoas comuns pudessem ler, eles então iriam ler a Bíblia, e isso poderia causar problemas.


A Viúva rica (igreja) fez exatamente o que as viúvas ricas costumam fazer. Ela tirou vantagem da situação para o seu próprio beneficio. Ela aumentou em riquezas e poder, e na sua influencia com os governos através da Europa. Esse foi um momento crucial que iria moldar o curso dos eventos na humanidade para o resto da história. no fim do primeiro milênio, aquela que clamava que seu Salvador era o mesmo que morreu na cruz dizendo "Meu Reino não é desse mundo", tinha se tornado a Rainha dos reinos da Terra.


O Papa autocrata Gelásio I (492-496), disse em sua famosa carta de 494 para o Imperador Bizantino Anastácio I:


" Existem dois princípios, venerado Imperador, pelos quais esse mundo é regido: A sagrada autoridade dos Pontificios e o poder Real... Você sabe muito bem, oh filho misericordioso, que mesmo você reinando sobre a humanidade, você abaixa a sua cabeça em devoção à aqueles que presidem as causas divinas, e que você espera a sua salvação por eles."


Agora, pois, ouve isto, tu que és dada a prazeres, que habitas tão segura, que dizes no teu coração: Eu o sou, e fora de mim não há outra; não ficarei viúva, nem conhecerei a perda de filhos.
Porém ambas estas coisas virão sobre ti num momento, no mesmo dia, perda de filhos e viuvez; em toda a sua plenitude virão sobre ti, por causa da multidão das tuas feitiçarias, e da grande abundância dos teus muitos encantamentos.
Porque confiaste na tua maldade e disseste: Ninguém me pode ver; a tua sabedoria e o teu conhecimento, isso te fez desviar, e disseste no teu coração: Eu sou, e fora de mim não há outra. (Isaias 47:8-10)



Europa Reconquistada



Se passaram aproximadamente 300 anos sem nenhum império dominante, e então...


Carlos Magno, tomou o trono dos Francos em 768. Ele foi o rei dos francos entre 768 e imperador do ocidente (Imperatur Romanorum) entre 800 até a sua morte em 814. Ele expandiu o Reino Franco até que ele se tornasse o Império Carolíngio, que incorporou a maior parte da Europa Ocidental e Central.


Durante esse Período, os Pagões das tribos germanicas e o restante dos pagões em geral da Europa foram todos forçados a se converter ao Cristianismo.


Durante o seu reinado, ele foi coroado Imperator Augustus pelo papa Leão III em 25 de dezembro de 800. E mais uma vez, O Papa e o Imperador uniam forças.


Novo Relacionamento entre  a igreja e o Estado



Esse evento marcou o inicio de um novo relacionamento entre a igreja e o Estado, com a autoridade do Imperador dependendo das bençãos da igreja. Se o Rei não fosse aprovado pela igreja, o Rei estava destituido do cargo.


Esse delicado relacionamento era complicado, com a igreja e os Reis querendo um ter mais poder sobre o outro. Mas normalmente os Papas e os Bispos ensinavam a população a honrar ao Rei, e o Rei retribuia o favor e ensinava a população a honrar os religiosos do clero.


Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano,
quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem.
Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; (1 Pedro 2:13-15)

Debaixo da ótima administração de Carlos Magno, a Europa viu um Império florecer, mas as raizes da sociedade continuavam provincianas por natureza. Então, quando não havia uma forte liderança para manter a população unida debaixo de um único Reino, os duques e poderosos da época reverteram tudo ao sistema familiar do feudalismo.

A sociedade feudal é um mundo de deveres e obrigações entre o senhor e o servo, cercados de laços familiares de sangue ou por casamentos, e cada um dos Senhores feudais tinha o seu próprio "mundinho", onde o Senhor Feudal local não reconhecia autoridade maior que sua.

Nesse tipo de sociedade o papel da Igreja era limitado a fazer batismos, casamentos e funerais. E
embora a igreja fosse dona de muitas terras, que na época era o unico modo de medir as riquezas, muitos Ministérios e Bispos eram controlados pelas nobres famílias feudais.

A ascenção do Papa Gregório VII em 1075 marcou um novo marco no Papado. Movido por uma visão de que o Papa era supremo não apenas a frente da igreja, mas sobre as autoridades também, Gregório fez o "Manifesto Papal", estabelecendo o Papa como o cabeça acima de principes e imperadores, pelo menos na teoria. A Excomunhão era a arma do Papa não apenas contra "Lords" desobedientes, mas contra todos seus dominios, que significava a suspenção dos sacramentos da vida católica para o povo.

Enfrentando essa suspensão dos sacramentos, e consequentemente de Deus, qual Senhor Feudal iria querer enfrentar o Papa?

Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores.
Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve.
Pois qual é maior: quem está à mesa ou quem serve? Porventura, não é quem está à mesa? Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve. (Lucas 22:25-27)

O Papa Gregório VII armou o palco para a grande performance do seu Sucessor, O Papa Urbano II, mas isso vai ficar para o próximo post, onde vão começar as Cruzadas.

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